O Lugar Da Língua Portuguesa

O que se anda a tramar nas costas dos Portugueses, em relação à Língua Portuguesa, nas Comemorações do 30º aniversário da CPLP?

Com o lema falacioso «CPLP 30 Anos: unidade na diversidade, uma comunidade para os Povos», que sabemos não corresponder à verdade, pois não há unidade, a diversidade foi anulada com a introdução do AO90, e a “comunidade para os Povos” é uma falácia.

Ainda não vi as televisões (veículos noticiosos mais abrangentes do País) nem os jornais mais conceituados noticiarem estas comemorações. Quando a Língua de Portugal está na berlinda, trata-se tudo pela calada de uma noite sem Lua e cheia de nevoeiro espesso, apresentando as coisas, depois, como facto consumado. 

No passado domingo, dia 5 de Julho, quando fui para a cozinha, fazer o almoço, como é meu hábito, liguei o rádio na RTP Antena 2, para ir ouvindo boa música, normalmente clássica, enquanto cozinho. A comida sai sempre muito mais saborosa. Desta vez, azedou.

Nesse dia, não foi música clássica que ouvi, mas sim um programa, que não apanhei do início, sobre as Comemorações do 30º aniversário da CPLP, já com algumas iniciativas efectuadas. Nada que me surpreendesse, fosse o pormenor de uma das iniciativas estar a ser anunciada por uma senhora brasileira, que não cheguei a saber quem era, e que tinha a ver com o ensino do Português na Galiza, e com a Língua de Portugal.

ATENÇÃO, Galiza! Mais do que nenhum outro Povo, os Galegos sabem que a Língua Portuguesa é Língua Irmã da Língua Galega, e, portanto, jamais poderia e poderá ser ensinada com base no acordo ortográfico de 1990 (1). A Galiza e o Condado Portucalense já partilharam a mesma Língua: o Galaico-Português, oriundo do Latim vulgar. Só no reinado de Dom Diniz, as duas Línguas foram separadas, e o Português propriamente dito, nascia, em território de Portugal.

Estou a destacar isto porque já ouvi dizer, por boca brasileira, que o Português nasceu na Galiza. Não nasceu. Nasceu em Portugal. Também já ouvi dizer por boca brasileira (talvez devido a uma tremenda ignorância, ou não) que o Português nasceu no Brasil. Por este andar, qualquer dia, teremos que o Português nunca existiu, a História de Portugal foi toda inventada, e a Cultura Portuguesa é uma alucinação dos Portugueses, todos descendentes de Brasileiros. E o Zé Parvinho ouve isto e diz ámen. Ninguém se pronuncia, com medo de serem taxados de xenófobos ou racistas, como se defender a Língua Materna tivesse alguma coisa a ver com isto.

Naquele domingo, ao ouvir uma senhora brasileira (2) a falar sobre a intenção da CPLP, no âmbito destas comemorações, implementar o ensino do Português, na Galiza, dadas as circunstâncias, não me pareceu que a senhora estivesse a referir-se à Língua de Portugal, mas sim à Variante Brasileira do Português, que, como todos nós sabemos, está a ser metida à força, em todos os cantos e esquinas, porque se nós, em Portugal, temos falta de professores, o Brasil, tem professores a mais. O que não deve significar que comecem por aí a espalhar a Variante Brasileira do Português, erradamente designada como “Português”, em detrimento do verdadeiro Português, até porque, penso eu, que os Galegos jamais mutilariam as palavras escritas em Português, que se igualam ao Galego. Se bem que ande por aí um movimento reintegracionista, que defende que o Galego e o Português são a mesma língua, e como tal, utiliza o mixordês ortográfico. Já não são. Cada uma seguiu o seu rumo, e hoje são simplesmente Línguas irmãs, e nenhuma delas está disposta a ceder à ignorância.

Soube também, hoje, por uma amiga desacordista, que fez um périplo por terras gregas, que a Língua Grega [na qual o Português também tem as a suas raízes] permanece inalterada há muitos séculos, sendo a base da civilização ocidental. Nunca precisou de mexedelas, e sabemos bem porquê. Aqui há tempos, li algures, pela pena de alguém, cujo nome já não me recordo, que quanto mais ignorante for um Povo, mais precisa de andar sempre a mexer na ortografia. Este é o caso único de Portugal e Brasil.

Já agora, há que dizer, que quando alguém da CPLP precisar de escrever algo sobre a Língua Portuguesa, deve, obrigatoriamente, escrever em Português, não, em acordês, linguagem que não é reconhecida legalmente, nem constitucionalmente, em Portugal.

E não venha a IA (Ignorância Amestrada) andar pela Internet a dizer que a Isabel A. Ferreira destrata o “Português do Brasil”, porque não destrata, até porque o “Português do Brasil” não existe. O que existe é a Variante Brasileira do Português, que não sendo designada como Português, é uma Linguagem tão válida quanto o Galaico-Português já foi, e que devido a uma evolução linguística baseada nas Ciências da Linguagem, resultou em duas Línguas: a Língua Galega (Galego) e a Língua Portuguesa (Português). A Variante Brasileira do Português nasceu apenas da vontade de uns tantos de simplificar o Idioma herdado do ex-colonizador, para diminuir o analfabetismo reinante.

Mais dia, menos dia, a Variante Brasileira do Português transformar-se-á numa Língua, mais apropriada à riquíssima Cultura Brasileira. É este o destino de todos os dialectos oriundos de uma Língua da qual derivam.

Não esquecer que foi com a Variante Brasileira do Português que eu aprendi a ler e a escrever. Não tenho motivo algum para a desdenhar. Porém, a minha Língua Materna é a Língua Portuguesa, e eu, como cidadã portuguesa, dos quatro costados, tenho o dever cívico de defendê-la da investida nada amigável de quem a quer destruir, para a substituir por uma Variante de si própria. Isto não é da honestidade.

Sim, eu sei, a culpa foi, É, dos (des)governantes portugueses que, usando da sua ignorância linguística e da sua pequenez, optaram por prestar vassalagem ao gigante sul-americano, esquecendo-se de que é nos mais pequenos frascos que se encontram os mais raros perfumes, e que nos grandes frascos, também podemos encontrar bons perfumes.

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- (1) Porque carga de água as pessoas escrevem acordo ortográfico de 1990, com letra maiúscula, e escrevem Língua Portuguesa com letra minúscula, quando sabemos, pela Gramática Portuguesa, que o nome das Línguas deve ser escrito com letra maiúscula? Que importância tem o AO90? É um acordo? Não é. É um Idioma? Não é.

- (2) Reparem que para falar desta questão, a RTP Antena 2 não foi buscar uma boca portuguesa, mais apropriada para falar sobre o Português, nem um representante de Timor-Leste, País que preside à CPLP, mas uma senhora brasileira, e isto não será bastante significativo, quanto ao por que bocas anda a Língua de Portugal a ser divulgada. Não haverá nenhum português com cultura linguística elevada para tratar das coisas da Língua de Portugal?

 Isabel A. Ferreira


Eis um livro precioso, que todos os interessados nesta matéria devem ler, para não andarem por aí a dizer disparates. É acessível até ao menos letrado, e conta a História do Galaico-Português.

Eis um excerto do livro:

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