O Lugar Da Língua Portuguesa

«(...) um povo que deixa de cuidar da sua Língua começa (...), a deixar que outros pensem por ele». Excelente reflexão de Victor Varela Martins “Em Defesa da Língua Portuguesa»

Ultimamente, começaram a surgir nas redes sociais textos de Portugueses, descontentes com o rumo que a Língua Portuguesa está a levar, estando a desaparecer no horizonte. O que anda por aí é uma linguagem sem pai nem mãe...

E um País sem Língua própria é silenciado pela mordaça do opressor.

E quem é o opressor da Língua Portuguesa?

Deixo à consideração dos leitores, a resposta a esta pergunta.

Isabel A. Ferreira

 

***

 

«Em Defesa da Língua Portuguesa»

 

Defender a Língua Portuguesa não é defender uma relíquia, um objecto, é defender uma forma de pensar. E, o pensar influencia o ser.

Uma Língua não é apenas um conjunto de palavras que utilizamos para comunicar. É sim, memória, identidade, cultura e, sobretudo, uma arquitectura do pensamento. Quanto mais rica, precisa e diferenciada for a linguagem que dominamos, maior é a nossa capacidade de distinguir ideias, sentimentos, intenções e realidades, não é?!

Por isso, preocupa-me a progressiva simplificação do Português. Não porque uma língua deva permanecer imóvel — pois nenhuma Língua viva o permanece — mas porque evoluir não é necessariamente empobrecer. Não pode sê-lo!

Há palavras que parecem sinónimas e não o são. Há diferenças aparentemente pequenas que transportam séculos de elaboração cultural e permitem dizer exactamente aquilo que queremos dizer.

Veja-se, por exemplo, a diferença entre “reparação” e “reparo”.

Quando uma máquina avaria, fazemos a sua reparação.

Quando causamos um dano a alguém, podemos procurar a reparação desse dano.

Mas quando observamos alguma coisa e chamamos a atenção para ela, fazemos um reparo.

E podemos ainda dizer:

— Não tive reparo nisso.

Ou:

— Permita-me fazer-lhe um reparo.

Aqui, “reparo” não significa conserto. Significa observação, advertência, chamada de atenção ou acto de reparar no sentido de observar.

A diferença é subtil. Mas é precisamente nessa subtileza que habita a riqueza de uma Língua.

Se começarmos a substituir indiscriminadamente “reparo” por “reparação” ou a abandonar uma das palavras porque outra “serve aproximadamente para a mesma coisa”, não estamos a modernizar a Língua. Estamos sim a perder capacidade de expressão, a perder significação da linguagem.

O mesmo acontece quando desaparecem distinções entre ouvir e escutar, ver e observar, lembrar e recordar, erro e engano, dever e obrigação, liberdade e licença, autoridade e poder.

As palavras não são recipientes vazios. Pois cada uma delimita uma parcela da realidade e, quando perdemos palavras, corremos o risco de perder também a capacidade de reconhecer as diferenças que essas palavras exprimiam.

A Língua Portuguesa possui uma extraordinária riqueza porque nela convergem séculos de História: a matriz latina, os vestígios das línguas anteriores à romanização, influências germânicas e árabes, a tradição cristã medieval e, posteriormente, o encontro com África, Ásia, América e Oceânia.

É uma língua que atravessou mares e que, ao fazê-lo, não permaneceu igual em todos os lugares. Tornou-se portuguesa, brasileira, angolana, moçambicana, cabo-verdiana, são-tomense, guineense, timorense, goense — múltipla na expressão, mas pertencente a uma mesma grande comunidade linguística — que tanto é algarvia quanto conimbricense, bragantina como é açoriana, alentejana ou vimaranense.

Essa diversidade deve ser respeitada. E, respeitá-la é respeitarmo-nos.

Mas respeitar a diversidade da Língua Portuguesa não significa apagar as particularidades do Português de Portugal.

Não precisamos de uniformizar aquilo que a História tornou plural, não é?!

Portugal não tem de deixar de dizer autocarro porque no Brasil se diz ônibus; nem comboio porque noutros lugares se prefere trem; nem telemóvel porque se generalizou internacionalmente outra terminologia. Do mesmo modo, seria absurdo exigir aos brasileiros, angolanos ou moçambicanos que abandonassem as formas que legitimamente desenvolveram nas suas próprias comunidades.

A unidade não exige uniformidade. Exige sim, compreensão, aceitação e empatia.

Há ainda outra dimensão que me parece fundamental: quem domina poucas palavras fica dependente de pensamentos mais simples.

Não porque seja menos inteligente, mas porque lhe faltam instrumentos para organizar e exprimir a complexidade.

Uma pessoa pode sentir algo profundamente diferente de tristeza, mas, se apenas conhecer a palavra “triste”, terá dificuldade em distinguir melancolia, desalento, pesar, mágoa, nostalgia, consternação, desânimo, saudades ou saudade.

E nenhuma dessas palavras significa exactamente a mesma coisa, pois são a expressão da miríade de vocábulos e significações específicas desta Língua.

A palavra saudade, aliás, demonstra magnificamente aquilo que está em causa. Não é apenas uma palavra bonita. É uma determinada maneira de reconhecer e nomear uma experiência humana.

Defender a Língua Portuguesa é, portanto, defender também esta capacidade de distinguir.

É ensinar às novas gerações que escrever correctamente não é submissão a uma autoridade gramatical: é adquirir liberdade.

Porque quem conhece vinte palavras onde outro conhece duas possui vinte possibilidades de pensamento, de expressão e de escolha.

A linguagem pobre favorece o pensamento aproximado; já a linguagem rica permite o pensamento rigoroso.

Por isso devemos desconfiar da ideia de que todas as simplificações representam progresso. Algumas facilitam a comunicação; outras apenas eliminam diferenças que já não tivemos paciência para aprender.

Uma Língua pode transformar-se sem renunciar à sua memória. Pode receber palavras novas sem expulsar desnecessariamente as antigas.

Pode acompanhar a tecnologia sem abandonar a literatura. Pode falar de inteligência artificial sem esquecer Camões, Padre António Vieira, Eça, Camilo, Pessoa, Sophia ou Agostinho da Silva.

E pode ser uma Língua do futuro precisamente porque possui um passado.

Defender o Português não é fechar-lhe as portas. É exactamente o contrário.

É querer que continue suficientemente vivo para criar palavras novas, suficientemente livre para admitir diferenças e suficientemente rico para não precisar de destruir uma única palavra sempre que aparece outra aproximadamente equivalente.

Porque entre reparo e reparação existe apenas uma pequena diferença de letras, mas pode existir uma enorme diferença de significado.

E é dessas pequenas diferenças que se constrói a precisão do pensamento.

Uma Língua não se empobrece apenas quando perde palavras. Empobrece quando deixamos de perceber por que razão elas eram, são, diferentes.

Preservar a Língua Portuguesa é, por isso, mais do que preservar palavras. É preservar a memória. É preservar a identidade. É preservar o pensamento.

E um povo que deixa de cuidar da sua Língua começa, lentamente, a deixar que outros pensem por ele.

Boas reflexões, para Todos.

Victor Varela Martins

Especialista em Medicina Natural Integrativa»

Fonte:

https://www.facebook.com/photo/?fbid=1626506482819866&set=a.431941918943001

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