Na linha dos seus antecessores, o texto do mês de Junho (o 93.º da série “Em Defesa da Ortografia”), continua a apresentar, exactamente, as mesmas características.
— A neta do Magalhães está com um grave problema de saúde. É anorética.
— O que é isso?
— É uma perturbação do comportamento relacionada com o medo de engordar. Às vezes, leva a uma enorme perda de peso.
— E também à perda de consoantes, neste caso, o cê.
— A CMTV diz, com desmedido orgulho, que aumentou, em muito, o número de espetadores.
— Não sei por que razão estão tão orgulhosos.
— Por terem aumentado as audiências, como se diz agora.
— Acho que se deviam envergonhar.
— Porquê?
— Por servirem sempre espetadas. Não há pachorra para estar sempre a comer o mesmo.
— Ó pai, disseram agora no noticiário que há um testa de ferro que escondia a actividade criminosa daquele arguido. Não percebo o que significa.
— Não há nada para perceber. Testa de ferro é uma prótese feita de ferro ou de outro metal.
— Então, pode enferrujar?
— Exactamente! E a ferrugem alastrar aos neurónios é um risco a ter em conta.
— Ó pai, lembras-te de, há dias, te ter falado da locução testa de ferro?
— Claro que me lembro. Porquê?
— É que hoje encontrei no jornal Público uma notícia que dizia que um arguido usava um empresário como testa-de-ferro. Será a mesma coisa?
— Claro que não. Testa-de-ferro é alguém que figura num negócio, camuflando o verdadeiro interessado nesse negócio. Pensar que testa-de-ferro e testa de ferro são a mesma coisa é como confundir O Alfageme de Santarém com o alfa que geme em Santarém.
— Ó pai, o médico disse que eu tenho pé-de-atleta, mas não tenho pé de atleta. Não percebi o que quis dizer.
— Vamos por partes, o médico disse-te que tens uma micose na pele dos pés, que é causada por fungos.
— Isso é pé-de-atleta, não é, pai? E pé de atleta?
— Pé de atleta é um pé sem deformidade alguma, habilitado a qualquer prática desportiva.
— É muito diferente, pai. Ninguém pode confundir um com o outro.
— Pois não. É como confundir o Antero de Quental com o quintal do Antero.
— O processo de adopção foi concluído, Lopes da Costa?
— Ainda não, Senhor Director.
— Porquê, Lopes da Costa?
— Os pais adotivos foram rejeitados, Senhor Director.
— Como assim, Lopes da Costa?
— O processo estava incompleto. Faltava-lhe um pê…
— Ando a ler Saint-Exupéry.
— O Principezinho?
— Não. Voo Noturno.
— Em que turno?
— Não é turno nenhum. É um voo durante a noite.
— Ah, Nocturno! Assim, até se lia melhor, asseguro-te.
— Ó pai, indefetível e indefectível significam o mesmo?
— Não, pá.
— Então, são o contrário uma da outra?
— Exactamente.
— Como pode ser isso?
— Presta atenção: indefectível significa indestrutível, infalível; já indefetível só pode significar destrutível, pois já lhe falta o cê. Outras quedas poderão seguir-se.
— O porta-voz do governo fez a correção no que diz respeito ao número de baixas registadas nos primeiros bombardeamentos.
— Grande coisa! Os números vão continuar incorrectos.
— Porque dizes isso? Ceticismo é contigo!
— Porque para ter números correctos, teria de ser feita a correcção, que é outra coisa. E cepticismo, já que pegaste nisso, também é outra coisa.
— Aqui estão os exames, Senhor Doutor.
— Pois é, Sr. Martins, continuamos com uns problemas óticos.
— Não me diga isso, Senhor Doutor. Além da surdez, tenho agora miopia?
— Não. Quanto à miopia, fique descansado.
— Ainda bem.
— Estou, contudo, a detectar aqui uns resquícios de ortogravírus. Não é bom, Sr. Martins, confundir ótico com óptico, ou seja, os ouvidos com a vista, percebe?
— O meu pai encomendou um defletor para aplicar na caçadeira.
— Qual é a utilidade dessa peça?
— Encaminhar o cartucho depois do disparo, segundo a Infopédia.
— Queres dizer deflectir?
— Acho que é isso.
— Então, diz ao teu pai que devolva a peça. Um defletor não corresponde às necessidades.
— Como pode resolver esta trapalhada?
— Precisa de fazer uma nova encomenda. Desta vez, um deflector…
— O médico disse-me que tenho uma coinfeção.
— O que é isso? Uma geringonça, um zangarelho tecnológico modernaço?
— Nada disso! Só pensas em aparelhos tecnológicos. É uma infeção provocada por dois ou mais tipos de vírus em simultâneo, como explica a Infopédia.
— Ah, uma co-infecção! Isso é gravíssimo! Mas mais graves ainda são esses teus hábitos de amputar consoantes e hífenes. Parece que escreves sob o efeito de drogas e isso só funcionou nos anos 60.
Ah! No dia 30 de Maio, na 96.ª Feira do Livro de Lisboa, foi apresentado o novo livro de Manuel Monteiro, com o título Em Nome da Língua, Ámen. Como sempre, vale a pena ler.
Ah! Ana Cristina Leonardo, no jornal Público de 15 de Maio, escreveu o seguinte: «Unidade na diversidade, e porque falamos de língua, levanta-me a dúvida: foi por pugnarem pela diversidade que nos impuseram um Acordo Ortográfico que, a pretexto da unificação da grafia, acabou a chutar para canto, invocando a “pronúncia culta”? Ou diversidade é tropeçarmos nos “fatos” do Diário da República, nos “contatos” das páginas das universidades e nos “espectadores do 25 de Abril nos ecrãs de televisão? E outra pergunta: em Portugal, o português europeu é para manter ou é para diversificar até se transformar noutra coisa?»
Ah! A primeira imagem que acompanha este escrito, copiada do sítio de um jornal desportivo, mostra como a língua caminha a passos largos para se transformar numa anedota.
João Esperança Barroca
