O Lugar Da Língua Portuguesa

Em Defesa da Ortografia (XCIII), por João Esperança Barroca

Na linha dos seus antecessores, o texto do mês de Junho (o 93.º da série “Em Defesa da Ortografia”), continua a apresentar, exactamente, as mesmas características.

 A aposta continua a ser a de mostrar diálogos, por vezes absurdos, de índole humorística, que ilustram a aberração do AO90, expondo as suas fragilidades, as suas incoerências e a sua completa ausência de lógica.

  As palavras a vermelho indicam as formas alteradas pelo AO90. As formas a verde, quando ocorrerem, remetem para grafias do Acordo Ortográfico de 1945, que, nalguns casos, se mantêm como duplas grafias. A azul, temos os casos de hipercorrecção, decorrentes da aplicação do Acordo Ortográfico de 1990.

 CXLV

        — A neta do Magalhães está com um grave problema de saúde. É anorética.

        — O que é isso?

        — É uma perturbação do comportamento relacionada com o medo de engordar. Às vezes, leva a uma enorme perda de peso.

        — E também à perda de consoantes, neste caso, o cê. 

 CXLVI

        — A CMTV diz, com desmedido orgulho, que aumentou, em muito, o número de espetadores.

        — Não sei por que razão estão tão orgulhosos.

        — Por terem aumentado as audiências, como se diz agora.

        — Acho que se deviam envergonhar.

        — Porquê?

        — Por servirem sempre espetadas. Não há pachorra para estar sempre a comer o mesmo.

 

 CXLVII

             — Ó pai, disseram agora no noticiário que há um testa de ferro que escondia a actividade criminosa daquele arguido. Não percebo o que significa.

             — Não há nada para perceber. Testa de ferro é uma prótese feita de ferro ou de outro metal.

               — Então, pode enferrujar?

               — Exactamente! E a ferrugem alastrar aos neurónios é um risco a ter em conta.

 CXLVIII

             — Ó pai, lembras-te de, há dias, te ter falado da locução testa de ferro?

             — Claro que me lembro. Porquê?

             — É que hoje encontrei no jornal Público uma notícia que dizia que um arguido usava um empresário como testa-de-ferro. Será a mesma coisa?

             — Claro que não. Testa-de-ferro é alguém que figura num negócio, camuflando o verdadeiro interessado nesse negócio. Pensar que testa-de-ferro e testa de ferro são a mesma coisa é como confundir O Alfageme de Santarém com o alfa que geme em Santarém.

 CXLIX

             — Ó pai, o médico disse que eu tenho pé-de-atleta, mas não tenho pé de atleta. Não percebi o que quis dizer.

             — Vamos por partes, o médico disse-te que tens uma micose na pele dos pés, que é causada por fungos.

             — Isso é pé-de-atleta, não é, pai? E pé de atleta?

             Pé de atleta é um pé sem deformidade alguma, habilitado a qualquer prática desportiva.

             — É muito diferente, pai. Ninguém pode confundir um com o outro.

             — Pois não. É como confundir o Antero de Quental com o quintal do Antero.

CL

             — O processo de adopção foi concluído, Lopes da Costa?

             — Ainda não, Senhor Director.

             — Porquê, Lopes da Costa?

             — Os pais adotivos foram rejeitados, Senhor Director.

             — Como assim, Lopes da Costa?

             — O processo estava incompleto. Faltava-lhe um pê…

 CLI

             — Ando a ler Saint-Exupéry.

             O Principezinho?

             — Não. Voo Noturno.

             — Em que turno?

             — Não é turno nenhum. É um voo durante a noite.

             — Ah, Nocturno! Assim, até se lia melhor, asseguro-te.

 CLII

             — Ó pai, indefetível e indefectível significam o mesmo?

             — Não, pá.

             — Então, são o contrário uma da outra?

             — Exactamente.

             — Como pode ser isso?

           — Presta atenção: indefectível significa indestrutível, infalível; já indefetível só pode significar destrutível, pois já lhe falta o cê. Outras quedas poderão seguir-se.

 CLIII

             — O porta-voz do governo fez a correção no que diz respeito ao número de baixas registadas nos primeiros bombardeamentos.

             — Grande coisa! Os números vão continuar incorrectos.

             — Porque dizes isso? Ceticismo é contigo!

             — Porque para ter números correctos, teria de ser feita a correcção, que é outra coisa. E cepticismo, já que pegaste nisso, também é outra coisa.

 CLIV

             — Aqui estão os exames, Senhor Doutor.

             — Pois é, Sr. Martins, continuamos com uns problemas óticos.

             — Não me diga isso, Senhor Doutor. Além da surdez, tenho agora miopia?

             — Não. Quanto à miopia, fique descansado.

             — Ainda bem.

             — Estou, contudo, a detectar aqui uns resquícios de ortogravírus. Não é bom, Sr. Martins, confundir ótico com óptico, ou seja, os ouvidos com a vista, percebe?

 CLV

             — O meu pai encomendou um defletor para aplicar na caçadeira.

             — Qual é a utilidade dessa peça?

             — Encaminhar o cartucho depois do disparo, segundo a Infopédia.

             — Queres dizer deflectir?

             — Acho que é isso.

             — Então, diz ao teu pai que devolva a peça. Um defletor não corresponde às necessidades.

             — Como pode resolver esta trapalhada?

             Precisa de fazer uma nova encomenda. Desta vez, um deflector

 CLVI

             — O médico disse-me que tenho uma coinfeção.

             — O que é isso? Uma geringonça, um zangarelho tecnológico modernaço?

             — Nada disso! Só pensas em aparelhos tecnológicos. É uma infeção provocada por dois ou mais tipos de vírus em simultâneo, como explica a Infopédia.

             — Ah, uma co-infecção! Isso é gravíssimo! Mas mais graves ainda são esses teus hábitos de amputar consoantes e hífenes. Parece que escreves sob o efeito de drogas e isso só funcionou nos anos 60.

Ah! No dia 30 de Maio, na 96.ª Feira do Livro de Lisboa, foi apresentado o novo livro de Manuel Monteiro, com o título Em Nome da Língua, Ámen. Como sempre, vale a pena ler.

Ah! Ana Cristina Leonardo, no jornal Público de 15 de Maio, escreveu o seguinte: «Unidade na diversidade, e porque falamos de língua, levanta-me a dúvida: foi por pugnarem pela diversidade que nos impuseram um Acordo Ortográfico que, a pretexto da unificação da grafia, acabou a chutar para canto, invocando a “pronúncia culta”? Ou diversidade é tropeçarmos nos “fatos” do Diário da República, nos “contatos” das páginas das universidades e nos “espectadores do 25 de Abril nos ecrãs de televisão? E outra pergunta: em Portugal, o português europeu é para manter ou é para diversificar até se transformar noutra coisa 

Ah! A primeira imagem que acompanha este escrito, copiada do sítio de um jornal desportivo, mostra como a língua caminha a passos largos para se transformar numa anedota.

 Ah! A segunda imagem, de outro jornal desportivo, é a demonstração cabal dos tratos de polé que a língua tem de suportar. Se é assim nos jornais, como será com o cidadão comum?

João Esperança Barroca


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