
Chegada de férias, fui surpreendida com a notícia da morte da Professora Maria do Carmo Vieira, um exemplo do que deveriam ser todos os Professores, neste nosso desventurado País, que teve a pouca sorte de ser invadido pela ignorância.
A notícia da sua morte, ocorrida no passado dia três de Agosto, em Lisboa, aos 74 anos – tão cedo! – deixou-me prostrada. Foi inesperada, nem sabia que estava assim tão doente, se bem que já não tinha notícias suas há algum tempo. Era discreta, a Maria do Carmo, mas tinha a força dos ventos, quando se tratava de lutar pelo que acreditava ser o certo.
Infelizmente, nunca tive a oportunidade de a conhecer pessoalmente. O centro das coisas importantes está em Lisboa. E eu, por via da vida, vivo longe desse centro, onde também estão as pessoas que mais contam.
A luta pela defesa da Língua Portuguesa, contra o inútil e falhado acordo ortográfico de 1990, em boa-hora, nos uniu. Partilhávamos a mesma paixão pela beleza da nossa Língua Materna, uma das Línguas mais antigas da Europa, embora os seus detractores não o considerem.
Tal como a Professora e Filósofa Maria Filomena Molder, sua irmã, revelou ao jornal PÚBLICO a Maria do Carmo «destacou-se pela coragem, pela capacidade de tomar partido, pela sensibilidade ao sofrimento, pelo humor, pela análise aos disparates que o acordo ortográfico fez acontecer a um ritmo alucinante» (...) «Quando estamos muito cientes de que a razão está do nosso lado, e o fazemos de forma lúcida, não devemos nunca abdicar dessa lucidez. O combate ao novo acordo ortográfico é uma prova do seu espírito corajoso, que não cede às pressões costumeiras relativamente a assuntos importantes que são tratados com grande leviandade. E os nossos governantes fizeram sempre ouvidos de mercador, nunca percebi porquê, a alguma crítica que era preciso ouvir».
Era assim a Maria do Carmo Vieira.
Neste ensaio, «evidencia-se a necessidade de expor os alunos a textos literários, desde muito cedo, dada a sua importância na educação da sensibilidade, na formação do pensamento crítico e no incentivo à intuição e à apreciação estética da palavra. Releva-se igualmente como fundamental a partilha de experiências de leitura de um professor, factor determinante, neste caso, na criação de um expressivo elo de ligação entre alunos e o espaço emblematicamente pessoano – o Café Martinho da Arcada – de que resultou uma acção concreta, em prol da cultura e do património.».
E foi a marca desta mais-valia, que Maria do Carmo impôs à sua Missão de Docente, que mais me fascinou, porque ser Professor não é apenas ir para uma sala de aula despejar matéria. E é isto que falha no Ensino actual.
Li este Ensaio com muito entusiasmo pelo possível e plausível desfecho desta iniciativa, encetada por Maria do Carmo Vieira, que, por via da Literatura, mais concretamente da apresentação de textos literários de Fernando Pessoa aos seus alunos, conseguiu que eles se entusiasmassem pela aventura do projecto de recuperação do célebre Café Martinho da Arcada, localizado no Terreiro do Paço, e frequentado pelo Poeta, e onde ele escreveu muitos dos seus textos, à época (1983) muito degradado e em vias de fechar, como fecharam muitos outros estabelecimentos da baixa lisboeta.
O livro conta-nos, de um modo entusiasmante, esta história linda, iniciada em 1983, pela mão da Professora Maria do Carmo Vieira, que desempenhou um papel importantíssimo ao levar até aos seus alunos a Literatura. O livro é interessantíssimo, poderoso, está muito bem escrito, e conforme pode ler-se na contracapa «(...) é um manifesto apaixonado sobre o poder de a literatura inspirar novos interesses e paixões e desencadear mudanças na sociedade. Defende também o papel fundamental do professor de Português como transmissor de um legado cultural, que desafia imposições e métodos, evidenciando o contraste entre o sentido da literatura, arte da palavra, e o utilitarismo de um texto funcional».
Maria do Carmo Vieira deixou-nos fisicamente, mas permanecerá entre nós através do seu exemplo, da sua obra, dos livros e dos textos que escreveu, impregnados de críticas bem justificadas ao acordo ortográfico, que só quem não quer ver nem ouvir, não vê, nem ouve.
A sua voz lúcida, a sua voz clara, a sua voz sábia ficará a entoar como um eco, até que os surdos, que estão no Poder, façam uma lavagem aos ouvidos e comecem a ouvir essa voz, acompanhada de mais vozes, que não deixaremos que se calem, até que a Língua Portuguesa se livre dos trambolhos ortográficos que a desfeiam, que a deformam, que a empobrecem, transformando-a numa língua farroupilha entre as Línguas Indo-Europeias. E isto com o aval do novo Presidente da República, que, nesta matéria, iguala Marcelo Rebelo de Sousa. Infelizmente. É triste ver presidentes da República a escreverem incorrectamente a Língua de Portugal, o País que dizem representar!
Até sempre, querida amiga Maria do Carmo Vieira!