Por Manuel Matos Monteiro
Tive o desprazer de assistir, na televisão, a uma “aula especial” sobre “descomplicar” (o verbo usado) o uso do hífen com o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990.
O exercício de explicar tal instrumento, que transformou a ortografia numa grafia de pechisbeque, de tentar dar forma ao caos nele contido não se distingue de falar do asseio de uma cloaca fétida e pútrida ou da castidade superlativa de um prostíbulo, razões pelas quais me quedei atento.
A “aula especial” foi exibida na SIC, volvidos mais de três decénios da data do instrumento em causa (será por estar a correr bem?), explicando as novidades impostas sem ninguém as pedir — ou sequer caminhar para aí.
Nos primeiros trinta segundos da “aula especial”, a autora e professora universitária Sandra Duarte Tavares começou por dizer no primeiro minuto: “Se vocês me permitem, dizer-vos o seguinte: na verdade, eu também não concordo com algumas regras. […] O Acordo entrou em vigor em Portugal e é para ser cumprido […].”
O tarzanismo — termo cunhado em Espanha para este uso desastrado, feiosíssimo e agramatical do infinitivo impessoal que grassa na televisão e na rádio (dizer que, lembrar que, recordar que, agradecer aos que votaram em mim, concordar com o que disse o meu colega) — e a flutuação de pronomes na segunda (“vos”) e terceira (“vocês”) pessoas do plural não agoiravam nada salubre, quais corvos pousados nos ombros da professora e escritora.
A docente universitária garantiu que explicaria por que razão “fim-de-semana” perde os hífenes, algo que, acrescentou, não é difícil, e decretou a regra de que os hífenes desaparecem “quando a palavra composta tem três palavras”, não perdendo, asseverou, quando têm duas. A afirmação sobre as palavras que têm três palavras não é verdadeira.
Passado pouquíssimo tempo, a regra da professora foi contraditada pela própria docente: as espécies botânicas e zoológicas, afinal, mantêm os hífenes (e há inúmeras formadas por três palavras).
Ignorando a Base XV, a professora universitária não proferiu uma sílaba (e muito menos explicou) sobre a preservação dos hífenes em “água-de-colónia, arco-da-velha, cor-de-rosa, mais-que-perfeito, pé-de-meia” (cito ipsis verbis do texto do acordo), até porque a regra das "palavras que têm três palavras" voltaria a ser invalidada.
Ao dar exemplos, a professora afiançou, por esquecimento ou ignorância, que “cão de guarda” perde os hífenes. Sucede que a Base XXVIII do acordo anterior (de 1945) estipula que “cão de guarda” se escreve assim: sem hífenes. Exactamente. Não se perde o que não se tem.
A propósito das “duas palavras” que não perdem o hífen, Sandra Duarte Tavares ignorou novamente a Base XV (e muitos menos explicou porquê): “pára-quedas”, “pára-quedista” e “manda-chuva” perdem o hífen (perdendo “pára” ainda o acento, numa das decisões mais absurdas e inexplicáveis das luminárias acordistas). Sucede que “paraquedas”, “paraquedista” e “mandachuva” estão escarrapachadas no texto do acordo.
A autora e professora universitária não acertou igualmente ao dizer que não existe “míni” enquanto palavra autónoma. Existia antes. Existe agora. E existe quer na qualidade de nome/substantivo (“bebi uma míni”), quer na de adjectivo (“este prato é míni”). Não é ainda exacto o que afirmou (e repetiu e escreveu no quadro) sobre “minissaia” ser com hífen antes do novo acordo, porquanto muita lexicografia pré-AO90 já acolhia a “minissaia”.
Asseverou ainda a douta docente que “co-” e “mini-“ “são radicais gregos, elementos gregos”. Quem consultar o Dicionário da Língua Portuguesa (o dicionário em linha da Academia das Ciências de Lisboa) ou a Infopédia, entre muitos outros, verificará serem elementos latinos.
Pairou ainda uma nuvem de opacidade e incompletude quando explicou e escreveu no quadro “contra-ataque” e “micro-ondas” (“microondas” para quem não segue o monstro), porque “vogais iguais, já temos hífen”. Não é curial misturar tais vocábulos, pois “contra-ataque” fica igual com o novo acordo, enquanto “microondas” passa a “micro-ondas”.
A propósito de vogais iguais, e a propósito da duplicação do erre e do esse, ficaram, convenientemente, de fora da aula palavras que não sofrem alterações como “vice-reitor”, “vice-rei”, “vice-almirante”.
Se houvesse antónimo para “presciente”, teríamos a palavra exacta para descrever o que previram os acordistas. Dia após dia, quem está atento a jornais, televisão, à paisagem urbana, ao que escrevem altos dignitários do Estado respiga a mixórdia tríplice diversas vezes por dia: aplicação de fatias do Coiso com fatias do “antigo” e hipercorrecções do Coiso como contato, fato, adição [para adicção] — até a própria língua inglesa sofre a pancada acordista em coisas (é melhor chamarmos-lhes assim) destrambelhadas como diretion, eletric, fator issues, Artic Monkeys, projet. INSERIR HIPERLIGAÇÃO: https://aventar.eu/2024/06/19/blue-eletric-light/
Por último, peço à senhora professora que reveja os erros que publicou no quadro abaixo e que faça um programa a retractar-se dos graves erros gramaticais (por caridade cristã, vou poupá-la agora) que divulgou no seguinte programa de (des)serviço público:
https://www.rtp.pt/play/p9953/e871427/na-ponta-da-lingua
IMAGEM DO QUADRO NAS HIPERLIGAÇÕES ABAIXO