
Um verdadeiro Monumento à Língua Portuguesa
Considerado um dos mais notáveis académicos portugueses, o Doutor Vitorino Magalhães Godinho, doravante designado por VMG, foi professor universitário, historiador, cientista social e ocupou o cargo de Ministro da Educação e Cultura entre Julho e Novembro de 1974.
Sendo um Homem de e da Cultura, VMG foi um dos intelectuais portugueses que, com grande determinação e uma voz crítica acutilante, combateu o obtuso acordo ortográfico de 1990 (*), doravante designado por AO90, assinado oficialmente em 16/12/1990, apesar das inúmeras críticas e contestação, algo que devemos tomar como um insulto aos Portugueses Pensantes, que deviam ter sido ouvidos em matéria de suma importância para a soberania de Portugal, e foram simplesmente desprezados, marginalizados, como se nada tivessem a ver com a novel Democracia, um regime político exercido à portuguesa, onde a voz do Povo não tem vez.
Depois da sua morte, em 2011, e devido à importância do seu legado, a sua filha Maria Teresa Magalhães Godinho, que foi Directora do Serviço de Cirurgia Torácica no Hospital de Pulido Valente e Professora na Faculdade de Ciências Médicas da UNL, publicou sob o título «Vida e Obra de Vitorino Magalhães Godinho – Combates por uma Civilização da Dignidade» - Edição de David Justino e CICS. NOVA, 2023 -, uma Biografia de seu Pai, baseada nos documentos reunidos no seu espólio.
É deste livro que respigarei excertos sobre o que VMG escreveu sobre «A Língua portuguesa e o Acordo Ortográfico».
. pp. 353: onde é referido o artigo «A Língua Portuguesa em tratos de polé» - Jornal de Letras 2008
. pp. 358-371 texto completo do artigo «A Língua Portuguesa para a sucata» - Jornal de Letras (23-29 de Junho 1986)
. pp. 372-373 texto completo d’ «O Acordo Ortográfico em questão - Carta Aberta aos Portugueses» (1991)
. pp. 374-375 texto completo de «Apresentação do Manifesto em Defesa da Língua Portuguesa» (sem data)
Tudo o que VMG escreveu sobre esta matéria importa, pelo seu saber, pela sua crítica esclarecida, uma voz que devia ter sido ouvida pelos governantes, e lamentavelmente, não foi.
Aconselho, pois, os leitores a lerem, na íntegra, os textos referidos, no link do livro, referido mais acima.
Aqui deixarei apenas alguns excertos do pensamento de Vitorino Magalhães Godinho, como aperitivo, para o banquete de saber que ele nos legou.
Advertência: transcrevo literalmente a linguagem contida no livro.
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«A Língua portuguesa e o Acordo Ortográfico».
Página 353
Em Junho de 1986, logo que se teve conhecimento do primeiro projecto do AO90, VMG publicou o ensaio “A Língua Portuguesa para a Sucata”, publicado no Jornal de Letras, Artes e Ideias, acerca do qual, Vasco Graça Moura [outro lutador incansável contra o tosco AO90] se apressou a dirigir-lhe as seguintes palavras, numa carta datada de 23/6/1986: «Permita que lhe agradeça o seu texto sobre a Língua Portuguesa, que acabo de ler e que pela veemência indignada, pelo rigor patriótico e pela justeza de diagnóstico, me comoveu no mais autêntico sentido da palavra. Creio que nenhum Português civicamente empenhado poderá deixar de lhe ficar grato pelo seu desassombro».
É de acrescentar o que Vasco Graça Moura escreveu no livro «Acordo Ortográfico. A Perspectiva do Desastre», p.32):
"[...] em relação ao Brasil, o que nos separa mais profundamente é o léxico, é a pronúncia, é a prosódia, é a morfosintaxe (talvez em último lugar a sintaxe, com meia dúzia de diferenças significativas)".
Neste ensaio VMG pôs em evidência a importância dos interesses económicos brasileiros e da utilização de Portugal como teste de ponte para a entrada na então CEE dos estados de expressão portuguesa, e, acrescento eu, do interesse do Brasil em impor a Variante Brasileira do Português à CPLP e à ONU.
Em consequência disso, VMG apela à união dos portugueses, porque «é imperativo que todos se unam na defesa lúcida de uma das razões mais profundas do nosso ser colectivo» [a Língua Portuguesa].
Em 2008, VMG escreveu no ensaio «A língua portuguesa em tratos de polé»: «O português está a ser esfacelado pela bacoca anglicização do vocabulário e maneiras de dizer e pela preocupação tecnológica com uma linguagem própria sem base cultural».
[Aqui, permitam-me que abra este parêntesis, para dizer que a mim faz-me mais mossa ouvir e ler os brasileirismos, sem origem, (exemplo: teto, objeto etc.) do que os anglicismos, que fazem parte de uma Língua global, bem estruturada, com origem, com história, que nunca cedeu às Variantes que se formaram a partir da Genetriz Inglesa, nas ex-colónias britânicas, e nunca fizeram acordos ortográficos, e a Língua Inglesa e as suas Variantes convivem pacificamente, sem o mínimo atrito. O mesmo não poderemos dizer da Língua Portuguesa, se bem que o busílis da questão ortográfica esteja apenas na ligação ao Brasil.]
«Em Abril de 1991, no Grémio Literário, VMG apresentou numa Conferência de Imprensa, a Carta Aberta aos portugueses - «O Acordo Ortográfico em questão», subscrita por cerca de 400 nomes das mais variadas áreas do saber e da cultura portuguesa.»
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«A Língua Portuguesa para a sucata»
pp. 358/359
Para VMG «a Língua é creação cultural e das transformações da rede social desde as funduras dos séculos, obra de gerações e gerações numa combinação em incessante devir dos “bens de avoenga” e dos “bens de ganhadia”. Não é, portanto, propriedade dos que num dado momento vivem, coexistem, os quais não gozam de qualquer direito de “usar e abusar”: respondem perante os que já desapareceram mas lha legaram, e perante os que vierem e deles exigirão receber o legado com continuidade da sua essência [...]»
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«O Acordo Ortográfico em questão - Carta Aberta aos Portugueses»
. pp. 372-373
7 – «O pretenso Acordo Ortográfico não foi construído a partir de estudos sólidos e aprofundados, nem de debate amplo e fundamentado; não se consultaram personalidades que era indispensável auscultar, nem sectores científicos que têm autorizada voz na matéria. Não foram ouvidos professores, escritores, jornalistas, historiadores. Não se atendeu, com soberano e infelizmente impune desprezo, a uns quantos trabalhos que apareceram, nem a opiniões que foram expendidas. Não se apresentaram nunca quaisquer razões minimamente de considerar, quer para justificar tal maneira de proceder, quer no sentido de fundamentar as propostas, transformadas em actos ditatoriais. Tudo isso basta para anular um Acordo, se ele por si não fosse já nulo.»
10 – «O auto-proclamado Acordo Ortográfico de Dezembro de 1990 não unifica nem simplifica nada porque:
a) não ataca a essência das divergências existentes, que são lexicais e sintácticas;
b) admite grafias duplas e torna facultativas certas grafias, o que leva a divergir em vez de convergir, e lança a confusão;
c) as alterações introduzidas carecem de fundamento e apenas as mantiveram por falta de coragem (ou lucidez) de reconhecer o fracasso do que se fizera e o erro total do caminho que se seguia;
d) essas alterações tornam ilógica a língua – para além do que é de admitir, visto que a língua não é uma elaboração lógica mas sim uma resultante de múltiplos factores – e aumentam assim as incompreensões e dificuldades: o que é antigiénico, geistória, etc.?»
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«Apresentação do Manifesto em Defesa da Língua Portuguesa»
. pp. 374-375
Neste Manifesto, VMG é peremptório na avaliação da Língua que é Portuguesa, e Portuguesa deverá continuar a ser.
– «É que, sob o pretexto de “modernização” estamos a sofrer uma ofensiva internacionalizadora, que visa objectivos imediatos de lucro, malbaratando o nosso património de valores (...)»
– «Proclama-se como alvo uma comunidade de 180 a 200 milhões a falarem português, mas no fundo desapropriamo-nos das indústrias culturais e tudo se faz para impor uma pretensa “reforma ortográfica” que fere a nossa estrutura cultural».
– «As tentativas ditas de unificação ortográfica entre Portugal e o Brasil foram lançadas pelas ditaduras de Salazar e Getúlio Vargas, que nesse caminho perseveraram sem aliás conseguirem esse fim. Para o estado totalitário os países e os seus habitantes são propriedade de quem detém o poder; assim os dirigentes acham que podem exigir o cujus regio hujus religio, talhar a língua a seu bel-prazer e substituir a memória colectiva cientificamente trabalhada e conscientemente assumida por complexos de mitos e de culto de heróis. Nessa senda ditatorial se prosseguiu nas recentes acções da chamada “reforma da ortografia”, congeminada no segredo de comissões ou instituições sem bases sólidas para tal tarefa. Obstinadamente, recusa-se prestar contas às únicas entidades com votos na matéria: o povo português, a comunidade científica e cultural».
– «As línguas não permanecem imutáveis, mas muitas vezes a evolução faz-se sob a influência de factores exógenos que as deformam e as ferem na sua estrutura».
– «Por isso seria calcarmos a nossa identidade aceitar tudo quanto vem do Brasil, como seria falta de confiança nos brasileiros não discutir francamente com eles as distorções a que a língua comum lá está sujeita. Só haverá entendimento recíproco se não nos coibirmos de lhes mostrar o nível lamentável das edições lá publicadas, no campo das traduções.»
– «Pugnemos pois por uma língua escorreita e correcta, que nos enraíze nas funduras dos tempos das experiências de nossos antepassados (...). Incremente-se o estudo do latim e do grego, e de todo o legado clássico».
– «Não queiramos impossíveis e artificiais unificações, através do mundo que fala e escreve português. E muito menos à custa dos valores que constroem o carácter da língua portuguesa.»
– «A Língua está num permanente construir-se que não é destruir-se (...)».
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(*) escrevo acordo ortográfico de 1990 com letras minúsculas, por ser algo insignificante, não pertencendo a nada que mereça elevação. Ao contrário, escrevo Língua Portuguesa e os nomes de todas as outras Línguas com maiúsculas, por pertencerem ao Património Cultural dos Países, por ser um símbolo da soberania dos Países. Não vejo motivo algum para escrever acordo ortográfico de 1990 com letras maiúsculas e Língua Portuguesa com letras minúsculas.
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Conclusão:
por todos estes motivos e todos os outros apresentados por Vitorino Magalhães Godinho nos seus escritos, vemos que o AO90 já deveria ter sido anulado há muito, e é lamentável que a sua voz não tenha sido ouvida. A existência deste acordo é uma vergonha para Portugal e uma tragédia para as gerações que estão a ser (de)formadas nas escolas portuguesas, com um ensino de péssima qualidade, porque o seu pilar (a Língua) está completamente a ser desprezada, e já ninguém sabe ler, escrever ou falar escorreitamente o Português, que é o nosso maior símbolo identitário e garante da nossa soberania.
Enviarei este texto ao Presidente da República Portuguesa, Dr. António José Seguro, e se ele puser a mão na sua consciência e se lembrar do que jurou no dia da sua posse, talvez possa haver esperança de Portugal recuperar a sua Língua, a Língua que o identifica entre todos os Países do mundo.
Isabel A. Ferreira
Fonte:
https://www.fcsh.unl.pt/static/documentos/informacao/flipbook/index.html#p=1